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Este palavra encontra-se n'Os Lusíadas de Luís de Camões.
(no wikisource)
- As armas e os Barões assinalados
- Que da Ocidental praia Lusitana
- Por mares nunca de antes navegados
- Passaram ainda além da Taprobana,
- Em perigos e guerras esforçados
- Mais do que prometia a força humana,
- E entre gente remota edificaram
- Novo Reino, que tanto sublimaram;
- E também as memórias gloriosas
- Daqueles Reis que foram dilatando
- A Fé, o Império, e as terras viciosas
- De África e de Ásia andaram devastando,
- E aqueles que por obras valerosas
- Se vão da lei da Morte libertando,
- Cantando espalharei por toda parte,
- Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
- Cessem do sábio Grego e do Troiano
- As navegações grandes que fizeram;
- Cale-se de Alexandro e de Trajano
- A fama das vitórias que tiveram;
- Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
- A quem Neptuno e Marte obedeceram:
- Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
- Que outro valor mais alto se alevanta.
- E vós, Tágides minhas, pois criado
- Tendes em mim um novo engenho ardente,
- Se sempre em verso humilde celebrado
- Foi de mim vosso rio alegremente,
- Dai-me agora um som alto e sublimado,
- Um estilo grandíloquo e corrente,
- Porque de vossas águas, Febo ordene
- Que não tenham inveja às de Hipocrene.
- Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
- E não de agreste avena ou frauta ruda,
- Mas de tuba canora e belicosa,
- Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
- Dai-me igual canto aos feitos da famosa
- Gente vossa, que a Marte tanto ajudar;
- Que se espalhe e se cante no universo,
- Se tão sublime preço cabe em verso.
- E vós, ó bem nascida segurança
- Da Lusitana antiga liberdade,
- E não menos certíssima esperança
- De aumento da pequena Cristandade;
- Vós, ó novo temor da Maura lança,
- Maravilha fatal da nossa idade,
- Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
- Para do mundo a Deus dar parte grande;
- Vós, tenro e novo ramo florescente
- De uma árvore de Cristo mais amada
- Que nenhuma nascida no Ocidente,
- Cesárea ou Cristianíssima chamada;
- (Vede-o no vosso escudo, que presente
- Vos amostra a vitória já passada,
- Na qual vos deu por armas, e deixou
- As que Ele para si na Cruz tomou)
- Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
- O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
- Vê-o também no meio do Hemisfério,
- E quando desce o deixa derradeiro;
- Vós, que esperamos jugo e vitupério
- Do torpe Ismaelita cavaleiro,
- Do Turco oriental, e do Gentio,
- Que inda bebe o licor do santo rio;
- Inclinai por um pouco a majestade,
- Que nesse tenro gesto vos contemplo,
- Que já se mostra qual na inteira idade,
- Quando subindo ireis ao eterno templo;
- Os olhos da real benignidade
- Ponde no chão: vereis um novo exemplo
- De amor dos pátrios feitos valerosos,
- Em versos divulgado numerosos.
- Vereis amor da pátria, não movido
- De prémio vil, mas alto e quase eterno:
- Que não é prémio vil ser conhecido
- Por um pregão do ninho meu paterno.
- Ouvi: vereis o nome engrandecido
- Daqueles de quem sois senhor superno,
- E julgareis qual é mais excelente,
- Se ser do mundo Rei, se de tal gente.